Intro inspice

      I

      Havia ao seu lado um corpo que não conhecia e, por isso, demorou-se a olhá-lo por entre as mantas da noites. Não entendia por que nele era tudo tão perto; ele não atravessava grandes distâncias para estar ao lado dela, estava sempre a um passo de onde estava realmente, enquanto ela, por mais que tentasse, não sabia criar intimidade entre o que revestia os silêncios de um e do outro. Mas não era só isso.

      Havia ao seu lado um corpo que desconhecia, e que adormecendo, puxava o seu ao redor de si. Então, ela se perguntava se por acaso ele, ao encher os pulmões com o escuro da noite (o ocaso de estrelas no avesso da fronte), se por entre as pálpebras fechadas, alguma fresta de luz ia junto, ou se a sonhava por dentro, tão à vontade que era. Mas era isso um tão resquício, um tão ao redor, que ela ensaiava a noite inteira ao seu lado com o gesto contraído, e só depois vitorioso, de lhe acariciar o peito impermeável. Era capaz até de se deixar ali, aninhar-se pelo gesto involuntário, afundando o corpo, um pouco mais, por entre as mantas da noite.

      Havia algum tempo, ele se dispunha a voltar e a dormir na fronteira entre os dois, como alguém que roubou dos outros uma sombra que não pisou, mas que, no segundo passo, foi pego em flagrante; uma sombra que tombou para um lado do rosto e só voltou para o outro na manhã seguinte; uma sombra que se moveu de um corpo ao outro sem qualquer limite ou divisas. Que deixassem entrar, eles antecipavam assim, que deixasse entrar, pois havia um ser que no cerne do mundo pairava inteiro, envolto em tanto invisível que era quase barulho, e tantos silêncios que quase cegava, quando ela, quase adormecendo, enxergava por dentro apenas a escuridão.

      Mas aquele corpo, abandonado da timidez com a qual chegara, conseguia desvencilhar-se de qualquer tensão entre os músculos e ausentar-se do mundo... Enquanto os seus dedos se abriam dormentes, ofereciam a última força desperta, e assim entregues, chegavam além da flor que um dia alguém esmagou entre os dedos. Recompor o miolo era sempre tão difícil, mais uma vez e mais outra, mas o que é isso, o que pensou, quanto pouco, quanto nada. Então, achar novas palavras, as palavras que ela amontoava entre si e o outro até que não alcançasse mais o silêncio primeiro, o silêncio que ele trouxe na palma das mãos, e que agora se soltavam adormecidas, mesmo que ela, um pouco aflita, não repartisse com ele a escuridão.

      Havia ainda muitos dentros onde ele poderia entrar, e a casa era só um deles. Por isso, quando ele chegava, ela antes o olhava pelo olho mágico, a ver se o enxergava com alguma esperança. E era só esse o instante em que podia vê-lo inteiro e de uma só vez, assim, tão convexo e pequeno... depois todo o mais era uma lente encurvando-se adentro: difícil apreender um só gesto. A palavra que ela não encontrasse, ele a deixaria no ouvido, apanhando uma outra dos lábios. Então, ele não tinha traumas? O caminho que não encontrasse, ele o deixaria no canto da porta, virados em retrocesso, como se um dos seus calçados guardasse esconderijos e atalhos aos silêncios que ele trazia de volta. Mas deixava-os ali, virados à parede, e só depois adentrava a sala sem os caminhos percorridos, com os passos desfeitos.

      Passava muito tempo até que ele finalmente entrasse. Um girassol esperando a noite, cabisbaixo, o tempo de separar-se do dia. Era o tempo de separar-se do mundo, e o mundo, de perder as palavras para o ar. Era o tempo de deixar o mundo atravessar-se por ela e, ainda assim, respirar. Juntava, então, muitas palavras para esconder e, depois, entregá-las a uma completa falta de jeito. Não há para mim um lugar naqueles braços, vá embora, ela pensou a muitas distâncias, e depois baixou a cabeça vendo a meia estampar-se de lágrimas; mas o que ela queria mesmo dizer, ele o conhecia com o corpo e, por isso, ela não soube o que fazer daqueles braços ao seu redor.

      Mas por que estava chorando era difícil explicar. Talvez de si mesma. Contra si mesma, chorasse. Um desenho manchado contra os seus olhos na blusa. Por que tinha medo do escuro se era tudo o que via quando fechava os olhos, e por que toda noite padecia de sono se nada via, e por que a escuridão dos olhos levava aos poucos os seus sentidos, e por que toda noite precisava desistir e se abandonar, e por que desperta piscava tão rápido, frações mínimas de segundo para umedecer os olhos, e por que no medo os fechava, uma gruta gotejando ao explorador a descoberta dos musgos, se tão escura, silenciosa e apartada do mundo? Mas não era só isso... Talvez, contra o abrandamento, uma presa apanhada no sono sob o morno do sol, contra o indefeso em si mesma, chorasse, mas também pela esperança, um cacto encharcado de água à revelia da chuva e do sol, do inesperado dele: já então flexível e vulnerável, chorasse.

      Compreenda, o Universo sempre se expandindo, tudo lentamente se afastando, até as placas tectônicas, os continentes se afastando, mas ela, vamos, um passo à frente, contra a força das marés e do vácuo, assoprar galáxias inteiras pelo espaço entre os dois e, ainda assim, respirar. Contra si mesma, uma pequena implosão no vazio que ainda não era, como às vezes pensava sobre os futuros que não existiram e sobre os outros que nunca veio a saber porque mais lentos e inseguros do que a escuridão.

      Mas se de novo ela pensasse demais, se pensasse, ao invés de de se aproximar, uma pequena implosão no vazio que ainda não era, e cujas partículas só se assentavam no conhecido... Eu só estou um pouco tonta, pois sem o chão continuaria a cair e a cair, quanto mais denso fosse o corpo, tanto mais rápido e aceleradamente, até um abismo se formar? Se ao menos ela fosse mais leve do que o ar, como as partículas de poeira que apenas pairavam na fresta de luz que entrava pela janela, então ela encontraria a coragem das primeiras manhãs.
      — O que você tem?
      — De vez em quando eu fico assim...
      Só depois respirava a meio caminho, não poderia amá-lo sem respirar, não poderia amá-lo a pulmão vazio. Era preciso criar um instrumento que tocasse o silêncio sobreposto ao ruído, um silêncio cada vez mais alto, um ainda mais grave e outro mais agudo, ainda mais alto do que o seu ritmo cardíaco! Mas ele se dispunha a voltar e a dormir na fronteira entre os dois, e era por isso que, no meio da noite, ela se assustava com um homem que aceitava tão pouco de si.

      Ele tinha mania de entrar e pedir um copo com água e depois não dizia nada, deixava que ela se aproximasse, era isso mesmo, deixava que ela se aproximasse, mas havia nisso tanto constrangimento, um desconforto ante àquela presença, deixar para lá, uma nota, instrumento, deixar aquele corpo para o Sol... mas ele compreendia aquele nada em suas mãos, a iminência de ser risível, que era estar tão afastada de todos, mas ali tão próxima que lhe enchia os olhos d'água. Não poderia amá-lo a pulmão vazio, era preciso criar um instrumento que tocasse o silêncio sobreposto ao ruído, não poderia amá-lo a plenos pulmões: era só até o medo passar, ninguém mais seria tão verídico.

      Já passou. Depois, poderia recortar tudo a vazios, todo o mínimo palpável, recortar, retirar de uma forma existente e lançá-la a um vazio, era sempre isso o que fazia antes que algo viesse a acontecer, de qualquer imagem, uma alegria completamente inverossímil, e por quê? Talvez, não houvesse mais perspectivas que organizassem o seu mundo, de todas as perspectivas que tivesse, eram as linhas do trem tão maleáveis, um novelo, ainda não, qualquer perspectiva que tivesse, ela recortava apenas um dos pontos em fuga e, jogando, por onde um dos gatos brincava...
      — O que foi?
      — Não foi nada.
      Foi sim, foi um dia, ela se deixou aqui, no meio daquela chuva feito uma árvore, cada gota fincando os seus pés sob o chão, eles crescendo para árvores, o seu corpo resistindo ao transparente, a matéria vitoriosa de não escorrer ou se diluir na poça, não se infiltrar no nada, como um suor irrecuperável de si. Ela não, ela continuou em pé, ela e a árvore, das poucas certezas da tarde, a de que o sol voltaria, pois ele sempre volta, mas a enxurrada sempre leva um pouco, mesmo da rocha mais íngreme, a chuva vem e desbasta. E, por isso, um pouco de si ficou aqui, no meio daquela chuva, por baixo daquela chuva, contra aquela chuva. Compreenda, uma árvore foi feita para ficar ao relento, ninguém precisa trazê-la para dentro, sob a terra ela germina e se começa em outras árvores. Ela não, a água escorrendo do rosto até o chão, ela e a árvore...
      — Não, de vez em quando eu fico assim...
      Mas onde esteve não existe mais, e era preciso descobrir um lugar que não se concedesse ao tempo, onde o tempo não pudesse entrar ou sair, e nesse lugar ela guardaria a sua avó, mesmo em menina de si, de jamais avó. Será que os gatos nunca pensavam na sua existência, não se assustavam com ela como diante de um besouro, ou do salto inesperado de um grilo? Mas se ela pudesse apreender um instante, não haveria a música. Então, sempre que escutava música, estava morrendo para algo que fora, por isso eu guardo esses papeizinhos.
      — Tudo bem, mas você pode me contar quando quiser.
      — Como você saberia quem é se não tivessem guardado esses muitos papeizinhos ao longo do tempo?
      — Porque... teriam me contado, eu acho. Meu avô teria contado a história do seu avô para o meu pai... e assim por diante.
      — Mas eu sou a única pessoa que conhece você, por enquanto. Como eu poderia confiar que um dia a gente esteve nesse lugar, por exemplo?
      — Como assim? Se você é a única pessoa que me conhece, a sua memória não é suficiente para você?
      — Quando você está dormindo, acredita que está realmente dormindo. Não fica sonhando que daqui a pouco vai acordar, fazer o café...
      — Então você tem dúvidas se eu estou mesmo aqui?
      — Não foi isso o que eu quis dizer...
      — Foi o que, então?
      — É que eu fui ao médico e trouxe de lá uma doença, agora não sei o que fazer com ela, se preciso estar sempre com ela, ou só às vezes eu vou me lembrar... Ela já estava comigo há muitos anos, mas agora tem um nome, é uma doença, e para mim era mesmo a realidade... mas ela é tão verdadeira quanto um sonho. É como se eu estivesse lutando contra um sonho, mas acordada...
      — Doença, que doença?
      — ... são alucinações, é isso.

      Ele ficou em silêncio. Compreenda, era como estender um sonho sobre a segunda camada do dia e lhe entregar, a mentira era sempre ciente, mas a alucinação não tinha dúvidas, ela acreditava ser verdadeira, e então, como a única testemunha de uma mentira tão inocente, tão sem dolo e sem culpa, sentia-se só. Como quem vivesse em um sonho e acordasse todas as noites, um sonho por dentro do outro, e então, só lhe restava mesmo acordar. Não entendia por que nele era tudo tão perto, ele não atravessava grandes distâncias para estar ao lado dela, estava sempre a um passo de onde estava realmente, enquanto ela, vamos, um passo a frente... mas a alucinação era impune porque doença. Os homens inventavam regras, escritas ou não, e por elas se baseavam, mas a doença não conhecia essas regras que freavam os homens ou que balizavam a convivência humana. Por isso os médicos se aventuravam em inventar barreiras contra elas, e nesse lugar ela guardaria a sua avó, mesmo em menina de si, de jamais avó, pois a avó tinha uma cadeira de balanço, e se sentava ali a se embalar, feito uma avó de si mesma. Ela não tinha dúvidas do que existia quando estava ao lado dela, porque havia entre elas os testemunhos de tudo o que um dia já fora. E como a responsável, ela ia aos poucos colocando a história entre os pequeninos vincos, pequenos degraus para si. Progredir para avó seria despedir-se da própria infância e, por isso, ela tinha essa dívida com a avó, por isso eu guardo esses papeizinhos.
      — Essa aqui é a minha avó.
      — A sua avó... e essa aqui é você?
      — Sim, essa sou eu pequena, ao lado da minha avó.

      II
      Precisava encontrar uma boa maneira de viver, uma maneira razoável de segurar a vida dentro de um potinho de vidro porque as formigas não sabiam compreender uma gota de chuva, nem se a gota viesse devagarinho sobre elas, nem se a gota virasse uma bolinha de sabão, e elas não soubessem mais como sair lá de dentro. As formigas só entendiam de andar enfileiradas, e sobre os doces fora de hora elas também entendiam, quando as avós davam permissão ao suave no mundo; por isso as avós, ela não podia esquecer, as avós não eram para sempre do era uma vez. Precisava então de encontrar uma maneira razoável de olhar a avó pelo cantinho do olho até a avó ficar do tamanho de uma bonequinha, do tamanho de se pegar com a pontinha dos dedos, assim. Tinha essas coisas que ela escrevia no caderninho que de nada valiam porque eram da vida de outro alguém, feito quando a lagartixa morria, o que valia disso, palavras? Na hora do apuro, nenhum bichinho queria ouvir a história que a menina Madelena escreveu, mas ela escrevia depois, mesmo sem valer, porque ficava no caderninho, um dia após o outro, e virando as páginas era nunca mais esquecer. Igual quando ela olhava uma foto dentro de um potinho, era olhar de novo, e a tarde inteira outra vez. E na foto tinha um gato e uma cachorra já velhinha, mas dentro do olho da cachorra, uma lua inteira se formando, era sempre de quarto minguante, mas quanto mais a lua crescia, mais era noite pra ela. E depois, como seria, uma foto dentro da outra? Ela pensando que o dia nunca mais voltaria? Ou dormindo de dia e de noite, esperando a luz do Sol voltar?

Escrito por Rita Apoena





Construindo o romance
Projeto experimental da construção on-line do romance Intro Inspice*, com publicação semanal das sequências dos tomos I e II. Previsão para finalização de ambos: maio de 2022.

*Em latim, "Olhe para dentro".



átimo
vivo tão intensamente
o momento presente
que quase chego atrasada
ao momento seguinte



fresta
mas a poeira é só a vontade
que o chão tem
de voar



pressentimento
procuro uma câmera
que fotografe o iminente
e a memória revele as imagens
pendurando-as na linha do tempo
para secar



primitivo
não tenho cadernos
tudo o que escrevo
escrevo nas paredes do meu quarto
se é para estar presa
que seja entre quatro poemas



pavimento
para o homem que dorme na rua
o asfalto é só uma noite escura
e sem estrelas



despedida
os cílios agarraram-se às pálpebras
quando tentei fechar os olhos
mas você assoprou e todos voaram
de novo nasceram e de novo voaram
não faça mais isso!
quem vai cortar a lágrima em fatias
no dia em que você for embora?



calafrio
o arrepio é quando
– por serem tão leves –
os seus dedos conseguem
em cada um dos meus poros
soerguer uma flor



grande centro
e só essa multidão
que barra e esbarra em meus ombros
em alguns anos terei os ombros
esculpidos pela solidão



raiva
no calor do fogo é que se molda o vidro
e quando a peça esfria
vê-se um pote fundo
de tristezas



Mariana
lambeu as lágrimas que escorriam
manchando a língua de tristezas
quando o vazio é muito grande
as lágrimas são transparentes



infinito
queria que seus olhos caíssem
no buraco negro
dos meus



ponto de fuga
no início da longa estrada
uma placa de trânsito
avisa os transeuntes:
favor reduzir a estatura
à medida em que se aproximar
do horizonte



côncavo
mas naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro
e quanto mais o tempo passava
mais o menino crescia
esbarrando em seu coração



estorvo
há dias em que ele me abraça
um abraço empalhado:
um espantalho que abriu os braços
apenas para espantar os corvos



ponto de fuga
no início da longa estrada
uma placa de trânsito
avisa os transeuntes:
favor reduzir a estatura
à medida em que se aproximar
do horizonte



côncavo
mas naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro
e quanto mais o tempo passava
mais o menino crescia
esbarrando em seu coração



cicatriz
essa casquinha fez uma ponte
sobre as feridas
porque feridas abertas
são como abismos por dentro



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