Intro inspice

Rita Apoena


      Capítulo I

      Havia algum tempo, ele se dispunha a voltar e a dormir na fronteira entre os dois, como alguém que roubou dos outros uma sombra que não pisou, mas que, no segundo passo, foi pego em flagrante; uma sombra que tombou para um lado do rosto e só voltou para o outro na manhã seguinte; uma sombra que se moveu de um corpo ao outro sem qualquer limite ou divisas. Que deixassem entrar, eles antecipavam assim, que deixasse entrar, pois havia um ser que no cerne do mundo pairava inteiro, envolto em tanto invisível que era quase barulho, e tantos silêncios que quase cegava, quando ela, quase adormecendo, enxergava por dentro apenas a escuridão.
      Havia ao seu lado um corpo que não conhecia e, por isso, demorou-se a olhá-lo por entre as mantas da noites. Não entendia por que nele era tudo tão perto; ele não atravessava grandes distâncias para estar ao lado dela, estava sempre a um passo de onde estava realmente, enquanto ela, por mais que tentasse, não sabia criar intimidade entre o que revestia os silêncios de um e do outro. Mas não era só isso.
      Havia ao seu lado um corpo que desconhecia, e que adormecendo, puxava o seu ao redor de si. Então, ela se perguntava se por acaso ele, ao encher os pulmões com o escuro da noite (o ocaso de estrelas no avesso da fronte), se por entre as pálpebras fechadas, alguma fresta de luz ia junto, ou se a sonhava por dentro, tão à vontade que era. Mas era isso um tão resquício, um tão ao redor, que ela ensaiava a noite inteira ao seu lado com o gesto contraído, e só depois vitorioso, de lhe acariciar o peito impermeável. Era capaz até de se deixar ali, aninhar-se pelo gesto involuntário, afundando o corpo, um pouco mais, por entre as mantas da noite.
      Mas aquele corpo, abandonado da timidez com a qual chegara, conseguia desvencilhar-se de qualquer tensão entre os músculos e ausentar-se do mundo... Enquanto os seus dedos se abriam dormentes, ofereciam a última força desperta, e assim entregues, chegavam além da flor que um dia alguém esmagou entre os dedos. Recompor o miolo era sempre tão difícil, mais uma vez e mais outra, mas o que é isso, o que pensou, quanto pouco, quanto nada. Então, achar novas palavras, as palavras que ela amontoava entre si e o outro até que não alcançasse mais o silêncio primeiro, o silêncio que ele trouxe na palma das mãos, e que agora se soltavam adormecidas, mesmo que ela, um pouco aflita, não repartisse com ele a escuridão.
      Havia ainda muitos dentros onde ele poderia entrar, e a casa era só um deles. Por isso, quando ele chegava, ela antes o olhava pelo olho mágico, a ver se o enxergava com alguma esperança. E era só esse o instante em que podia vê-lo inteiro e de uma só vez, assim, tão convexo e pequeno... depois todo o mais era uma lente encurvando-se adentro: difícil apreender um só gesto. A palavra que ela não encontrasse, ele a deixaria no ouvido, apanhando uma outra dos lábios. Então, ele não tinha traumas? O caminho que não encontrasse, ele o deixaria no canto da porta, virados em retrocesso, como se um dos seus calçados guardasse esconderijos e atalhos aos silêncios que ele trazia de volta. Mas deixava-os ali, virados à parede, e só depois adentrava a sala sem os caminhos percorridos, com os passos desfeitos.
      Passava muito tempo até que ele finalmente entrasse. Um girassol esperando a noite, cabisbaixo, o tempo de separar-se do dia. Era o tempo de separar-se do mundo, e o mundo, de perder as palavras para o ar. Era o tempo de deixar o mundo atravessar-se por ela e, ainda assim, respirar. Juntava, então, muitas palavras para esconder e, depois, entregá-las a uma completa falta de jeito. Não há para mim um lugar naqueles braços, vá embora, ela pensou a muitas distâncias, e depois baixou a cabeça vendo a meia estampar-se de lágrimas; mas o que ela queria mesmo dizer, ele o conhecia com o corpo e, por isso, ela não soube o que fazer daqueles braços ao seu redor.
      Mas por que estava chorando era difícil explicar. Talvez de si mesma. Contra si mesma, chorasse. Um desenho manchado contra os seus olhos na blusa. Por que tinha medo do escuro se era tudo o que via quando fechava os olhos, e por que toda noite padecia de sono se nada via, e por que a escuridão dos olhos levava aos poucos os seus sentidos, e por que toda noite precisava desistir e se abandonar, e por que desperta piscava tão rápido, frações mínimas de segundo para umedecer os olhos, e por que no medo os fechava, uma gruta gotejando ao explorador a descoberta dos musgos, se tão escura, silenciosa e apartada do mundo? Mas não era só isso... Talvez, contra o abrandamento, uma presa apanhada no sono sob o morno do sol, contra o indefeso em si mesma, chorasse, mas também pela esperança, um cacto encharcado de água à revelia da chuva e do sol, do inesperado dele: já então flexível e vulnerável, chorasse.
      Compreenda, o Universo sempre se expandindo, tudo lentamente se afastando, até as placas tectônicas, os continentes se afastando, mas ela, vamos, um passo à frente, contra a força das marés e do vácuo, assoprar galáxias inteiras pelo espaço entre os dois e, ainda assim, respirar. Contra si mesma, uma pequena implosão no vazio que ainda não era, como às vezes pensava sobre os futuros que não existiram e sobre os outros que nunca veio a saber porque mais lentos e inseguros do que a escuridão.
      Mas se de novo ela pensasse demais, se pensasse, ao invés de de se aproximar, uma pequena implosão no vazio que ainda não era, e cujas partículas só se assentavam no conhecido... Eu só estou um pouco tonta, pois sem o chão continuaria a cair e a cair, quanto mais denso fosse o corpo, tanto mais rápido e aceleradamente, até um abismo se formar? Se ao menos ela fosse mais leve do que o ar, como as partículas de poeira que apenas pairavam na fresta de luz que entrava pela janela, então ela encontraria a coragem das primeiras manhãs.
      — O que você tem?
      — De vez em quando eu fico assim...
      Só depois respirava a meio caminho, não poderia amá-lo sem respirar, não poderia amá-lo a pulmão vazio. Era preciso criar um instrumento que tocasse o silêncio sobreposto ao ruído, um silêncio cada vez mais alto, um ainda mais grave e outro mais agudo, ainda mais alto do que o seu ritmo cardíaco! Mas ele se dispunha a voltar e a dormir na fronteira entre os dois, e era por isso que, no meio da noite, ela se assustava com um homem que aceitava tão pouco de si.
      Ele tinha mania de entrar e pedir um copo com água e depois não dizia nada, deixava que ela se aproximasse, era isso mesmo, deixava que ela se aproximasse, mas havia nisso tanto constrangimento, um desconforto ante àquela presença, deixar para lá, uma nota, instrumento, deixar aquele corpo para o Sol... mas ele compreendia aquele nada em suas mãos, a iminência de ser risível, que era estar tão afastada de todos, mas ali tão próxima que lhe enchia os olhos d'água. Não poderia amá-lo a pulmão vazio, era preciso criar um instrumento que tocasse o silêncio sobreposto ao ruído, não poderia amá-lo a plenos pulmões: era só até o medo passar, ninguém mais seria tão verídico.
      Já passou. Depois, poderia recortar tudo a vazios, todo o mínimo palpável, recortar, retirar de uma forma existente e lançá-la a um vazio, era sempre isso o que fazia antes que algo viesse a acontecer, de qualquer imagem, uma alegria completamente inverossímil, e por quê? Talvez, não houvesse mais perspectivas que organizassem o seu mundo, de todas as perspectivas que tivesse, eram as linhas do trem tão maleáveis, um novelo, ainda não, qualquer perspectiva que tivesse, ela recortava apenas um dos pontos em fuga e, jogando, por onde um dos gatos brincava...
      — O que foi?
      — Não foi nada.
      Foi sim, foi um dia, ela se deixou aqui, no meio daquela chuva feito uma árvore, cada gota fincando os seus pés sob o chão, eles crescendo para árvores, o seu corpo resistindo ao transparente, a matéria vitoriosa de não escorrer ou se diluir na poça, não se infiltrar no nada, como um suor irrecuperável de si. Ela não, ela continuou em pé, ela e a árvore, das poucas certezas da tarde, a de que o sol voltaria, pois ele sempre volta, mas a enxurrada sempre leva um pouco, mesmo da rocha mais íngreme, a chuva vem e desbasta. E, por isso, um pouco de si ficou aqui, no meio daquela chuva, por baixo daquela chuva, contra aquela chuva. Compreenda, uma árvore foi feita para ficar ao relento, ninguém precisa trazê-la para dentro, sob a terra ela germina e se começa em outras árvores. Ela não, a água escorrendo do rosto até o chão, ela e a árvore...
      — Não, de vez em quando eu fico assim...
      Mas onde esteve não existe mais, e era preciso descobrir um lugar que não se concedesse ao tempo, onde o tempo não pudesse entrar ou sair, e nesse lugar ela guardaria a sua avó, mesmo em menina de si, de jamais avó. Será que os gatos nunca pensavam na sua existência, não se assustavam com ela como diante de um besouro, ou do salto inesperado de um grilo? Mas se ela pudesse apreender um instante, não haveria a música. Então, sempre que escutava música, estava morrendo para algo que fora, por isso eu guardo esses papeizinhos.
      — Tudo bem, mas você pode me contar quando quiser.
      — Como você saberia quem é se não tivessem guardado esses muitos papeizinhos ao longo do tempo?
      — Porque... teriam me contado, eu acho. Meu avô teria contado a história do seu avô para o meu pai... e assim por diante.
      — Mas eu sou a única pessoa que conhece você, por enquanto. Como eu poderia confiar que um dia a gente esteve nesse lugar, por exemplo?
      — Como assim? Se você é a única pessoa que me conhece, a sua memória não é suficiente para você?
      — Quando você está dormindo, acredita que está realmente dormindo. Não fica sonhando que daqui a pouco vai acordar, fazer o café...
      — Então você tem dúvidas se eu estou mesmo aqui?
      — Não foi isso o que eu quis dizer...
      — Foi o que, então?
      — É que eu fui ao médico e trouxe de lá uma doença, agora não sei o que fazer com ela, se preciso estar sempre com ela, ou só às vezes eu vou me lembrar... Ela já estava comigo há muitos anos, mas agora tem um nome, é uma doença, e para mim era mesmo a realidade... mas ela é tão verdadeira quanto um sonho. É como se eu estivesse lutando contra um sonho, mas acordada...
      — Doença, que doença?
      — ... são alucinações, é isso.
      Ele ficou em silêncio. Compreenda, era como estender um sonho sobre a segunda camada do dia e lhe entregar, a mentira era sempre ciente, mas a alucinação não tinha dúvidas, ela acreditava ser verdadeira, e então, como a única testemunha de uma mentira tão inocente, tão sem dolo e sem culpa, sentia-se só. Como quem vivesse em um sonho e acordasse todas as noites, um sonho por dentro do outro, e então, só lhe restava mesmo acordar. Não entendia por que nele era tudo tão perto, ele não atravessava grandes distâncias para estar ao lado dela, estava sempre a um passo de onde estava realmente, enquanto ela, vamos, um passo a frente... mas a alucinação era impune porque doença. Os homens inventavam regras, escritas ou não, e por elas se baseavam, mas a doença não conhecia essas regras que freavam os homens ou que balizavam a convivência humana. Por isso os médicos se aventuravam em inventar barreiras contra elas, e nesse lugar ela guardaria a sua avó, mesmo em menina de si, de jamais avó, pois a avó tinha uma cadeira de balanço, e se sentava ali a se embalar, feito uma avó de si mesma. Ela não tinha dúvidas do que existia quando estava ao lado dela, porque havia entre elas os testemunhos de tudo o que um dia já fora. E como a responsável, ela ia aos poucos colocando a história entre os pequeninos vincos, pequenos degraus para si. Progredir para avó seria despedir-se da própria infância e, por isso, ela tinha essa dívida com a avó, por isso eu guardo esses papeizinhos.
      — Essa aqui é a minha avó.
      — A sua avó... e essa aqui é você?
      — Sim, essa sou eu pequena, ao lado da minha avó.

....Escrito por Rita Apoena





Construindo o romance
Primeiro capítulo do romance em construção: Intro Inspice*. Previsão de término: outubro de 2021.
*Em latim, "Olhe para dentro".


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Os veganos lutam pelo fim da escravidão animal.

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