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03/10/2005 | 12:00 | Dona Epifânia
“E-hen, nada que eu fizesse tava certo. Aí eu falava, ai mãe vamos embora daqui. Ela dizia não, minha filha. Para onde eu vou, já vendi minha casinha. Agora... Eu disse, pequeninha. Mãe eu corto mamona, nós faz uma casinha na areia. Lá é difícil chover mesmo. Com as folhas assim, lá não chove mesmo e daí eu vou procurar fruta para nós comer. Xiquexique, juá, quixaba, umbu.. E eu fui mesmo e ela foi atrás, tadinha, fazer meus gostos...Parecia uma casinha de boneca, ela entrou assim se encurvando. E ficou lá comigo até que Martinho disse 'Eu não brigo mais com você'. E eu disse 'é mesmo, você é muito ruim comigo, Martinho'. Aí eu voltei. Quando eu voltei, choveu, sabe. Só o riacho correndo. Mas lá era limpa a água. E quando a gente ia lavar roupa. A gente ia como daqui em Santo André. Dormia lá, esperava secar a roupa, drobava e vinha com a roupa na cabeça. E a gente passava uns quatro dias lá, sem levar do que de comer. Quem era mais rico que dava a gente, sabe. Eu não tinha roupa e era mocinha, daí minha madrinha da outra cidade mandou uns cortes de panos para mim, e eu disse 'Eita, agora vou a festa de São João, Santo Antônio. Quando é...' fiquei besta, disse que para aprender a costurar Pureza foi lá e cortou tudinho meus panos. Aí eu cheguei e vi, a maquininha era daquelas de rodar. Quando eu cheguei e perguntei onde é que você achou esse pano e Pureza disse. 'É seu pano e eu peguei a mor de aprender a costurar'. Ave Maria mas eu peguei nos cabelos dela, uns cabelos compridos assim feito o seu e arrastei pela máquina por tudo, chega saiu sangue do fio dos cabelos. E disse: 'tome, isso é para você não fizer mais isso'. Daí Mãe foi lá e me bateu. Eu corri mas ela me pegou. Depois eu tinha uma cabritinha que chamava Bita. 'Vem Bita, vem...' e ela vinha de onde tivesse dando pulos feito uma doidinha. Vinha correndo para cima de mim. E ela dava leite, eu tirava leite todo dia. A menos isso, na época que ela paria, a gente tinha leite da Bita e bebia. Mas ela me dava cada pontada! Era só eu chamar ela de Bita e ela pum vinha com as pintas, ainda que meio antipatizada com o apelido. Mas é porque ela gostava de mim. Mas depois vendi para comprar uns recortes de pano para ir no casamento de Pureza. Parece que deu quatro recortes de pano pra Mãe, três para mim e eu não comprei nenhum a Pureza. Ela era a noiva. E você acredita que Pureza pegou o melhor recorte e eu pensei. Meu Deus que vida triste essa minha.” (03/10/2005). | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Dona Luiza
"Fui muito amiga de minha mãe, Ritinha. Ela era muito bonita e tinha um cabelo feito um birote. Mãe conversava comigo as coisas todas que as pessoas achavam feio. Mãe me contava do namorado dela, do pai dela. Meu avô foi um agricultor errado. Naquela época nao havia automóvel porque não havia estrada, só cavalo em sela de prata. Meu avô comprou um mangalarga. Você sabe o que é um mangalarga, Ritinha? Você deve saber. Naquele tempo os homens ricos compravam cavalo da Espanha. E meu avô só vendia. Meu avô tinha apelido Zezinho. Levava um canudo e minha avó dizia: "Mas Zezinho, homem..." Mãe contava essas coisas todas, nós nao tínhamos rádio, Ritinha. Exemplo: naquela época não tinha essa coisa de imposto. Cada um tinha seu sítio e depois que havia feito era em seu nome. Meu avô tinha 3 ou 4 sítios, mas não tinha amor naquele pé de fruto, naquele coqueiro. Minha avó era loura e meu avô nunca tinha nada. Quando eu perdi meu avô tinha a idade assim de Sarinha. Mas não tive saudade, ele era um homem muito ignorante, não deixava ir na feira, você acredita, Ritinha? Exemplo: você acabou de chegar com seu carrinho da feira cheio de verduras. Não... naquela época ficava falada. Aquele nojo. Se você conversasse com rapaz, sua mãe passava e dava surra. Tinha aquele valor de virgindade. Aí eu dizia um palavrão (não sei se é bom você botar isso em seu livro) mas eu dizia palavrão, Ritinha. (Risos) Dizia e meu avô botava professor no sítio. Eu estudava. Meu amigo trazia livros de medicina e eu saí daquela ignorância. Eu dizia a Mãe que ela não aceitasse coisas do pai e ela ficou civilizada. Deus que havia deixado o sexo para os homens, para as gerações. Isso Deus deixou. Éramos pobres e mãe vendia os bodinhos para comprar roupa para nós. Meu tio vendia as coisas do meu avô. "Meu filho... era de passar as coisas do inverno." "Não, pai, eu preciso comprar roupa para mim." Como se precisasse, Ritinha. Eu nunca vi um homem matuto daquele jeito. Ah, mudei de assunto, eu volto já. Dona Otelina, a professora só falava alto, como gente surda, moca. Existe essa palavra moca, Ritinha? Não sei se você coloca essa palavra no seu livro pois deve de ser correto com o bom português o seu livro. Mas é surda. Assim como eu que vou pertinho para ouvir: O que foi? O que foi que você disse? Às vezes eu faço que entendi, com vergonha de parecer velha moca. Como o tempo passa, Ritinha, como o tempo passa..." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Dona Teresa
"Já viu filme que um bando de homem sai com um bando de cachorro para caçar? Já viu filme assim? Apois. Era daquele jeito. E numa dessa a minha bisavó estava perdida no meio do mato, perdida da tribo dela. Ela se perdeu porque ela era pequena. Acho que ela se perdeu porque saiu, saiu e quando viu não achava mais o rastro de casa. Quando os cachorros vieram vindo ela se assustou e se embrenhou no meio do mato e se perdeu. Os cachorros pegaram minha vó, mas não machucaram não, só acuaram. Aí pegaram ela e levaram. Foi indo, foi indo, foi indo, civilizou ela. Ela ficou civilizada. Ela ficou trabalhando na casa de Nhonhô. Eles ensinaram ela direitinho, rezar, cozinhar, barrer o chão.Quer dizer que ela era índia. Daí ela gostou do meu bisavô e casaram. Aí nasceu minha bisavó. Quer dizer que minha avó era filha de índia com português. Minha vó disse que o pai dela tinha um bigode deeeeesse tamanho.[risos] É que meu registro não dá o nome da minha família inteira. Eu sei que minha avó chamava Tomázia. Eu sei que era da Cunha. Daí Nhonhô não tinha filho porque era estéril, não sei, não podia malá mulher dele. Criou minha avó feito fosse um filho deles. Não minha avó, mas eles também tinham outra menina. Então, tinha minha avó e essa menina. Mas ele gostava mais de minha avó. Minha avó dormia na cama deles. Minha avó era muito bonita viu. Cabelo comprido, liso e pretinho, olho puxado para lá. Então disse que. Ela conta, ela contava para a gente que. Ela morreu com cento e vinte anos. Estava velhinha, andava sempre bem arrumada. Ela morreu de um sopro do sono. O médico disse que o coração estava fraquinho, batendo bem devagar, feito uma folha que vai pousando na água. Foi assim que minha avó morreu. Você se alembra de minha casa? Eu acho muito mais bonita a minha casa como era. Nós sempre trabalhando, compremo essa casa, compremo um terreno no Itapeva, outro em Ribeirão Pires. Mas logo tive de vender porque ele estava doente. Precisava cuidar dele. E ele nunca tinha deixado nada faltar a nós, era sempre uma fartura. A Gleice era a sua princesinha, andava numa estica de bonequinha. Tinha boneca de chorar, tinha tudo. Comprou um piano desse tamanho para ela, com banquinho e tudo. Boneca, relógios, anel de pedras boas, olha. Tem boneca boa até hoje jogada para riba das telhas. Tudo o que ele via de brinquedo ele comprava. Daí, coitado. A gente estava guardando dinheiro para fazer a casa ali na frente, tudo guardadinho. Mas daí ele ficou doente. Gastemo o dinheiro que estava guardado, mas o terreno de Ribeirão Pires. Até que gastou tudo. No enterro dele, a Gleice comprou o melhor caixão que tinha. Gleice, por que isso? Ele já morreu mesmo. Ela não, ele sempre me deu tudo do melhor. É a última coisa que a gente vamos dar a meu pai. Comprou o mais caro, o enterro ficou é negócio de seis. Não sei se foi seis mil ou seis milhão. Naquele tempo não era real, era de cruzeiro. Cinco mil e quinhentos cruzeiros. Mas ele morreu, fazer o que. Acabou-se o que era doce. Mas foi um homem bom, não só para mim, mas para qualquer um dessa rua." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Dona Epifânia
"Perdi meu pai quando minha mãe estava grávida. Me criei. Aos troncos e barroncos, nem tinha o que comer, não tinha o que vestir, não tinha o que calçar. Minha mãe fazia uns sapatos, chinelos para vender a mor de comprar do que de comer. Quando ela estava se erguindo, um tio meu quase matou ela porque minha tia fugiu com um rapaz e ele pensava que mãe sabia. E mãe procurando ela. Então a gente comia uns matos lá no norte, xiquexique, chega a ardia na garganta, comia xiquexique, palma, umbu, quixaba. Nós ia buscar água como daqui em Capuava de légua. Para cozinhar. Nós pequenininho. Nós ia lá. Tinha vez que a gente levantava de manhã tinha uma cascavel na porta, sim, chega tava chacoalhando o rabo na porta. Outras vezes na telha. Sim. Mas essa não mordia, não, mas Deus me livre ver uma dessa hoje em dia. (Risos) Outra. Minha mãe muito doente. O primeiro dente que ela teve que foi extraído o homem veio, extraiu, sem anestesia nenhuma, pegou um alicate, arrancou, minha mãe desmaiou. Peguei um pedaço de pau e dei na cabeça do homem que se dizia que era dentista (Risos) Eu falei: 'É bom fazer isso com os outros?' E ele disse: 'Ei diacho da peste'. Eu dei mesmo com fé e esperança. Disse: 'Ah! Você quer matar a minha mãe? Eu mato é você”. Aí minha mãe.... Aí minha mãe quando acordou me disse 'minha filha, mas ele foi foi tirar meu dente que estava doendo...' 'Mas mãe, tirar desse jeito, a punto senhora desmaiar? Pensei que a senhora tinha morrido!'' Depois, eu peguei um canarinho no meu dedo. Esse dedo você vê que é torto, agora ele tá pulando osso. Ficou desse tamanho assim. Aí vieram, pegaram eu com um canivete amolado, sem anestesia e tum tum tum chega o pus se jogava. Aí eu desmaiei. Fui até o outro dia, dormindo. Mãe chorando dizendo que eu estava dormindo demais. Eu desmaiei dormindo porque fazia muito tempo que eu não dormia, do pus latejando meu dedo. Depois, minha mãe. Depois, foi a terraplanagem lá no norte. Era trator para fazer a rodagem. Aqui é asfalto, mas lá era chão. E ia lá minha mãe fazia doce. Doce de coco, doce de abóbora. A chegar mandava eu com um taperué para vender os doces aos operários. Mas eles comia quase tudo sem me pagar. Mas eu achava que ali eu estava abafando né? (Risos) Depois, depois... aí minha pegou a vender ela mesma que ali não tava vindo dinheiro, não. Aí minha mãe arrumou cumpadi Martinho para casar, aí ele veio para a cidade, Canudos que é onde a Lolita nasceu. A Guerra de Canudos que passa." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Seu Lazo
"É foram momentos bons, mas passei um maus bocados, também. Nunca mais. Diz que quem sofre do coração, é assim. Não agüenta respirar, nossa, fazer pulso. Mas estamos na luta. Não vale entregar. Eu estou com setenta quilos ponto zero. Antes, eu estava mais gordinho. Peguei e falei: ah eu vou dar mais uma segurada na comida. Se a gente não segurar, não tem jeito, né? Não pára. Continuei fazendo caminhada outra vez. Ô... ontem mesmo saí daqui e fui até o viaduto, voltei. Manda ver, Rita, pode comer. Eu ando tremendo, olha. Às vezes, eu pego o conta-gotas e é difícil acertar a gota no vidro. O Rashma veio esses dias, está com o cabelo comprido até hoje. Até hoje aqueles cabelos compridos, parece um daqueles índios americanos, o cabelo compridinho. O Rashma está com... vinte e dois anos. [Vinte e dois!?! Mas vocês não me deixavam cuidando desse menino quando ele era pequeno? Puxa...] Vinte e dois ou vinte e três anos ele fez. O Cauê tem dezessete. O Jeremias pegou um trabalho no Canadá de não sei que, e eles foram para lá. O Rashma é magrinho... só é alto, né? Mas é bem magrinho e aquele cabelinho, lisinho, lisinho. O Cauê não é mais loiro, ficou de cabelo preto, mas ele só raspa a cabeça. O olho ainda ficou azul. Dá um nervo um cabelo daquele. Mas... daqui a pouco, eles nos dão um bisneto, ô... vou adorar. Agora, não sei, mas estou pensando que o primeiro vai ser o Diego. O Diego está bem firminho com aquela menina. Não sei se a Rita conhece, a Dona Carolina, uma bem velhinha... ele namora a neta dela, ali, onde tem um portãozinho só, uma entradinha. No dia da semana, agora, eles deram um pulo em casa." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Seu Lazo
"Santa Lídia, cidade São Jorge. Tinha um padrinho de casamento da gente. Era lá de Minas, veio e foi morar na cidade São Jorge. Ele andava com nós. O Raul. O Raul, um neto dele, casou também, ali no Santo André. A gente ia passear na casa dele, ele vinha na nossa, tinha dia, olha foi um toró e tinha não faruleiro. A gente passava por ali, mas era tipo uma viela, um lugar de passar, uma ruinha muito danada de terra e era barro dali até uma outra rua que vinha para cá. Na rua do Baronesa. Chegava naquela subidinha, assim ó. Encostamos num barzinho lá. Aí peguei e falei para o rapaz do barzinho. Ele tinha uma Kombi. Olha, me leva até em casa, faz favor. A Janete era pequena. Não sei quantos anos tinha a Janete, não. Sei que tinha assim. Era pequena. Eu falei a ele: eu pago, eu pago o trabalho do senhor levar. E ele: mas o que é isso, senhor? Pode deixar, pode deixar. Eu levo e não vou cobrar nadinha, não. E não cobrou mesmo. Pois é, naquele tempo tinha gente como agora não tem mais [risos]. Hoje o cara nem ir ele vai, quanto menos sem pagar. Mudou tudo, mudou tudo. [Ah. Seu Lazo, o pastelzinho da Dona Mariana não mudou nada, está igualzinho de bom] Pega outro, Rita, pode pegar, não precisa ficar com vergonha [risos]. Você está assim entrevistando, né? Mas você tem afinidade com a Sara? Rita, seguinte. Uma hora, que você vier, traz ela junto, traz ela também. Os colegas do Jefferson eu conheço eles. Se eu ver tudo eles eu conheço, mas por nome, não. Eles pegam. O Rita, pega mais um pastel, pode pegar mais um pastel [a essa altura do campeonato, todos já perceberam a real intenção da entrevista] . Olha. A Janete foi viajar e deixou o cachorrinho aqui, um branquinho, pintadinho, isso, igual ao Rick. Ele tinha o costume de morder as galinhas. O Rita, pega mais, pega aí. E eu só sei dizer, Rita, que esse daí aprendeu com ele, aprendeu com ele, com o Rick. Essa é outra da família. Tudo bem, filha? Chegou alguma notícia? Manda ver, Rita, manda ver, come mesmo [risos] A nossa casa, olha, tinha tudo, um trazia uma bebida, outro trazia um não-sei-o-que e trouxemos ele, e antes o balde era cheinho de coisas para ir comendo, comendo, comendo... E ia, ia o certo e tudo, pergunta para o Dida de que jeito que ele dormiu com nós aquele dia da outra vez. O Dida dormiu numa poltrona grande, assim. Eu embaixo, assim no chão, no tapete, botei lá o colchão, o travesseiro, uma manta fininha assim e deitei aqui na parte do meio, outro deitou ali para o outro canto e quando eu via tinha todo mundo, tinha catorze na sala. Já pensou? Uma outra vez, o único lugar que sobrou para mim e para a Mariana foi debaixo da cama, lá da mesa da cozinha. E deitou não sei quem mais junto. Tinha mais um, acho que era criança pequena. A Ana Beatriz, não sei. | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Seu Lazo
"A gente cria, mas não dá coragem de matar. Verdade. Lá na chácara mesmo eu era assim: não vendia, deixava as galinhas até morrer de velhinhas. É verdade. E aqui mesmo, outro dia, morreram umas galinhas. Já veio aqui velha, já não botava mais nada. Não tinha um remédio. A gente não tem costume de vender. Sei lá, eu acho até... num acho certo negociar com galinha. Vendia lá uns ovos. E o que vendia era só para comprar ração. Eu vou te contar, Rita. Fica muito caro para criar galinha. Compensa muito mais comprar uma dúzia de ovos, comprar um frango. Pegar. Você vai aí na padaria, compra um frango prontinho, sem nenhum trabalhinho sequer, não é verdade? Sem pele, torradinho. Eu comecei a vender ovos lá por dois cruzeiros, dois, dois real a dúzia. Nunca mudei. Fiquei até o finzinho. Ta, nós ficamos lá, nós fomos em 95, 96. Seis anos. Ah, Rita, nós voltamos porque ficava lá sozinhos. O Jéferson não queria mais ficar lá. Ele não tinha parada.. Oswaldo estava aqui, ele estudava aqui, vinha pra cá, não ia pra lá. Eu sempre insistia, sempre pedia, mas ele nem aí. E eles gostam dele. Ele gosta da turma toda. Pelo menos, graças a Deus, parece que não há brigas. Mas eu não topo muito esses negócios não. É namorico praqui, namorico prali. Mas, olha, sinceramente, Rita. Cada um sabe o que quer para si, né? Mas a gente tem que engolir porque é filho e faz o que quiser. E, agora, ele ainda é de maior. Está com dezenove anos. Olha aí o homem. A gente estava falando mal de você, você apareceu. Ele cuida da vida dele e a gente não vai modificar a mente de ninguém. A gente dá conselho não é para mudar uma pessoa, a mentalidade dela. Antigamente, lá no meu tempo, no interior, a gente conseguia dar uma guinada na vida da pessoa, mas hoje não dá não. Não modifica, depois é que a gente vê. Pega, Rita, come. Eu não posso com coisa doce, mas eu abuso. Ele é igual a Zé Francisco. Jéferson com os amigos dele vira um. E o Jé também encontra os amigos e faz bagunça. Ele vai, fala, brinca, mas é só com a turminha dele, só. Dentro de casa, ele é quieto feito Zé Francisco. Zé Francisco é assim e é até hoje. Pega, Rita, pode comer [Ritinha serrando um pastelzinho delicioso da Dona Mariana] Nossa, Rita, esse está muito gorduroso, pega outro. Você gosta de molho? Está bom, está?" | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Dona Mariana
"Eu gosto de laranja, ô... Mas essas laranjas que a gente compra hoje, na feira, não é mais a mesma coisa. A mãe da Valéria ela mora lá, num lugar lá e lá tem muito, é a terra da laranja. E toda vez que o Jamil vai para lá, a mulher dele vem para cá, ele traz. Ai, mas uma laranja tão boa... um doce, não é igual essas com pressa de crescer, é... muito boa, é uma beleza. Eu vou ali botar o lixo e já venho, tá? Na época que morou a inquilina da casa da cumadi, e teve uma festa de noite. Os convidados pegaram um pato da gente. Depois, a Dona Alzira achou uma pata com o pescoço cortado, sem morrer. Não era para comer que a gente criava, era só por amizade. O ovo da feira não tem nem comparação com o ovo que a gente criava. Galinha caipira. Era muito bom lá, viu Rita. Era não, é. A gente veio porque ficava sozinho lá. O Jéferson não queria ficar mais lá, né? Ele trabalhava com o Osvaldo, ia para escola e só chegava dez horas, onze horas. Ficava eu e o Lazinho lá sozinho. Enquanto o Jeremias estava lá, lá com a gente.Ainda tudo bem, né? Mas daí resolvemos vir embora para cá outra vez. A Janete falou que a gente só vai dar valor na mãe da gente quando a gente casa e tem filho e, daí, vai ver como é e entender por que a mãe fez o que fez. ? [para o Jefferson] O que foi, meu filho? Não pode ir de papete? Essa escola. Não pode ir de bermuda, não pode ir de papete. Coloca logo um uniforme. É... Daí, ontem, ele teve de voltar para botar a calça. Daí, hoje, teve de voltar para botar o têne. O, Rita, pega aí, pastel. Vai ver que o Jefferson, ele sai e deixa o portão aberto. Espera aí, Rita. Pega aí, Rita, pode comer." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Seu Lazo
"Mas a gente vinha, a gente vinha praqui pra Jacutinga, pra Jacutinga da malharia, esses negócios que fala, né? Como tinha estação de trem no nosso sítio, ainda tem até hoje, a gente tomava o trem, vinha até Sapucaí onde a gente fazia baldeação com Mongeana. E, então, a gente aproveitava, vinha até Jacutinga, dava uma hora, uma hora e meia, ia lá, comprava alguma coisa, o centro comercial era muito pequeno, uma rua só, então dava muito tempo para comprar o que queria na cidade. Daí, voltava de trenzinho. E, depois, abriram estrada, né? E, aí, abriu tudo, né? Mas já desse tempo, nós já estava em casamento, quando... bom, a Mariana foi... olha, eu não sei bem, Rita, se é nesse dia mesmo, ou é no outro sábado, eu sei que foi dali, começou ali no meio da estrada, lá, tinha até um arcozinho, o mato ralinho por ali. Agora, eu não sei bem o dia que começou. Foi em 58, quarenta e cinco anos. Eu sou de 5 de maio de 1937. Cinco de maio. Eu tenho... ah, 2003 menos 1937 dá sessenta e três, né? Mas agora vai fazer sessenta e sete anos. Mas, olha, você quer ver? Estou me lembrando nem do dia do casamento. Que caramba! Deixa eu ver se lembro ainda. Eu estava trabalhando em Mogi-Guaçu [pensando]. Deixa eu ver... é mole? Você já pensou, Rita? Você casar agora e dali a quarenta e cinco anos, hein? Nós, até agora... temos nossos atritos, mas ainda estamos aí. Uma vez nós paramos uns tempos. Ela foi para a casa da mãe dela, do pai dela. Depois, voltemos outra vez. Sempre tem as briguinhas, né? Não fica sem ter briga." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Dona Mariana
"E aquela época a gente andava tudo a pé. Ia lá para Santa Lídia, carregando a Joelma no colo, depois veio a Janete, carregava a Janete no colo, a Joelma pela mão e a gente ia de pé, carregando tudo as criança. Agora os filho tão grande, tem carro, tem ônibus de graça para os idoso e a gente não vai. Não dá coragem de sair de casa. O que será que está acontecendo? Será que a gente vai ficando velha e vai ficando assim? Mas não é, os novo tudo também estão enfiados dentro de casa, vendo tevê, vendo novela, fazendo uma coisa, fazendo outra, tudo com pressa, credo... Não tem mais tempo para ser o amigo do outro. Não tem mais aquela disposição que a gente tinha, de sair, de passear, não tem mais. Eu não sei o que é, eu não sei não, ai, credo... Ah meu Deus, eu sei que... olha. Quando eu fizer mais pastel, eu chamo você, viu. Você gostou do pastel, né? Estava com saudade do pastel da Mariana, né? Pode comer, come sim, não tenha bronca de comer. Eu chamo você. Vou gostar que você venha comer o pastel. Com você, a gente tem mais intimidade porque foi criado desde pequena aqui junto. Agora a Sara ela foi para lá, a gente foi para o sítio. Quando voltemo, ela já era moça crescida. A gente ficou seis anos para lá. Então, quer dizer que a gente tem amizade assim, oi, oi, tudo bem, tchau. Mas pode chamar a Sara para comer pastel, também. O Rita, pega mais, pega. Toma mais suco, ó. Quando tinha meu pai e minha mãe vivo, eu ia sempre para o sítio. Mas, depois que eles morreram, eu não ia mais." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Seu Lazo
"Ah, Rita trabalho que dá, dá, mas estamos lá até hoje. Até hoje que eu não sei. Dá, mas é uma beleza. Plantamos... tem até uns pés de fruta lá da vez que plantamos lá. Quando a gente chegou lá tinha lá uns pés de mexerica, pé de laranja, a laranja comeu mesmo do interior, sabe? Aquela que é azedinha, ela tem dois ou três dias para colher. Daí quando ela faz isso começa a estragar depois. No finzinho ela dura. Boa ô...nós fazia suco. Tinha as mexeriquinha, hum, cheirosa ô... Nós viemo do sítio mesmo quando viemos para São Paulo. Mas a gente já tinha morado em Mogi-Guaçu, Itapira, depois voltamos lá para... depois de casado, sabe. Lá onde nasceu Zé Francisco, Jeremias. Daí nós viemos para cá. A Dona Mariana? Ah Rita, sabe que para falar a verdade para você eu não lembro bem quando eu, quando conheci Mariana. Eu só lembro o dia em que ela foi para a cidade, veio o conhecido lá e tal, aí o rapaz me convidou para vir junto para casa dele, conhecido e tal, eu vim. Daí que eu fiquei mais assim, conhecendo, mas não lembro bem direito. E naquele dia já começamos já um flerte né? Umas olhadinhas né? E era um sábado até, de tarde, daí eu sei lá, podia ser o que, umas duas e meia, três horas, não sei bem. A gente num alto, andando né numa estrada, ali que parece que deu um estalo. Foi ali, foi num sábado, eu não sei o dia. Foi num sábado. Geralmente, a gente ia na cidade era só sábado." | Registrado por Rita Apoena



23/05 | 12:37 | Dona Mariana
"Engraçado, né, Rita? A Joelma, a Janete, a Janete andava com você na rua, no colo, até caiu da escada com você pequenina de tudo. Não sei como não morreu. É... olha ... cresce, credo, se afastam tudo. E mora tudo perto. Não é que mora longe. A vida faz isso. Fica diferente. Ah, eu acho que antes tinha. A minha cunhada, que era mulher do Daniel, que até o filho dela casou e tudo, minina, mas olha, toda semana eu ia na casa dela, toda semana ela vinha aqui em casa. As criança era pequena. Agora... mas minha fia, olha, eu não sei quando, esse ano eu não fui na casa dela. Nem ela veio na minha. Já uma porção de mês do outro ano. No outro ano inteirinho eu não fui na casa dela e nem ela veio na minha. E você acredita? Ela mora ali no Santa Lídia? Ai, credo... sei lá. Lá era minha mãe, minha irmã, minha outra irmã e meu irmão. Passou de noite, cada um ia na casa do outro. Não tinha um dia que a gente não se visitava. Outro dia era meu irmão, outro dia era minha mãe, a gente combinava onde era o encontro da família. Então, sei lá, minina. Ninguém parece que sai de casa. Os nossos filho era tudo pequeno, a gente saía." | Registrado por Rita Apoena





Minha avó, Dona Epifânia, e a nossa grande amiga e vizinha, Dona Mariana.





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