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24/05 | 11:14 | Querida Beatriz,
como descobrir este instrumento de arte que carregamos a todos os lugares? Não nos damos conta de sua potencialidade existencial ou artística enquanto caminhamos ou nos alimentamos ou nos vestimos, quando demonstramos afeto a alguém ou, simplesmente, esperamos uma contagem de tempo que não sabemos onde irá findar. Pensávamos muitas vezes na arte fora do corpo ou restrita a um local onde se pratica, mas tudo isso se descortina ao pensarmos no corpo uma escápula, o diálogo com uma parte do tórax, ou milhares de outros corpos que seguem um mesmo trajeto. Quem sou eu no mundo? Quem sou eu em meu prório corpo? Em qual se estende a minha essência ou que dela se escapa ou a atravessa enquanto danço? E há ainda outro detalhe, ao pensar nesse corpo em suas unidades expressivas, como desconstruir os movimentos que fizemos ao longo da vida? Para o corpo, só instrumentos de arte que se desbastam. Como retirar de minha escápula os anos em que eu simplesmente não pensava nela? Há agora ali uma escápula, um calcâneo, um rádio, e o que eu faço agora de um silêncio tão povoado de mim? | Responder a Rita Apoena



23/05 | 11:25 | Querido Helano,
hoje eu comprei sementes de girassol. Há isso de extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém pode comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Pode até fazer uma sementeira de tulipas. Neste caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios, deixo aos outros, cuidarem. Também elas precisam de carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra. | Escrito por Rita Apoena



22/05 | 11:37 | Querida Terezinha,
quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nas pessoas ao nosso redor? E ir deslizando pelos pequenos detalhes, na beleza não manifesta e, ao mesmo tempo, ofuscante? Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nos olhos do outro, sem qualquer pressa, sem procurar ali dentro o próprio reflexo? Foi esses dias, eu aninhei as mãos de minha avó por dentro das minhas, encostando o meu rosto em seus dedos tão frios, como se ela tivesse acabado de nascer em seu corpinho já envergado pelo tempo e marcado pelos dias… Naquele segundo, eu entendi que nada era mais urgente, nem mais importante, do que ouvir a minha avó reaprendendo a falar… E que eu sequer começaria a ver alguém – além de mim mesma – se não pudesse enxergar as pessoas para as quais olhei a vida inteira. | Responder a Rita Apoena



21/05 | 12:02 | Querida Terezinha,
Desde criança eu acordava pensando que viver é uma experiência extraordinária. Às vezes, parava no meio da brincadeira, com o brinquedo nas mãos e crianças correndo em segundo plano, diante dessa constatação, e sabendo que para sempre me lembraria daquela experiência, pois eu já tinha percebido que todas as vezes em que eu pensava no tempo, conseguia retê-lo. E ele não era como a bola que saía rolando desgovernada pelo íngreme quintal, até onde não mais pudesse avançar. Era um tempo embrulhado dentro de outro, e que pensando muito nele, dava-me uma vontade louca de viver, pois tinha sempre a consciência do tempo e o de estar viva. Culpa de um pássaro que nunca mais cantou, e se tombou na concha das minhas mãos, assim cansado dos meninos que botavam asas nas pedras e, num instante, o pássaro desistindo de trazer um punhado de nuvens no bico para enfeitar o ninho. Daí eu pensava sempre no pássaro, segurando muito o tempo entre as mãos, e também nos meninos que não viam a diferença entre estar na brincadeira e olhar para ela de fora, ou a semelhança entre as nuvens e as roupinhas de dança, e fui também crescendo - para sempre - com aquelas peninhas nas mãos.| Responder a Rita Apoena



20/05 | 10:58 | Querida Terezinha,
Parece que foi ontem, eu correndo entre as árvores tão cheias de frutos. Eu peguei um dos frutos, mordi. O tempo pegou uma das flores, caiu. Parece que foi ontem, eu deitada na grama para olhar as nuvens e meus dedos descobrindo na terra a flor que eu nunca poderia salvar. Se, ao menos, ela aceitasse o sol e a terra que eu tinha. Se, ao menos, não desistisse da primavera, quando o inverno chegasse primeiro, pousando as suas mãos sobre ela… Parece que foi hoje, os transeuntes com pressa, trazendo os caminhos do futuro para baixo dos pés. E eu entre os meus pés distraídos, descalços, colhendo do tempo, daquela antiga praça, uma erradia flor. | Responder a Rita Apoena



19/05 | 09:40 | Querido,
O homem inventou o relógio a partir das coisas que se repetem. Ele percebeu que as folhas voltavam depois de um tempo ou a folhagem das árvores. A vida do homem é só aquele instante exato em que ele observa a flor na terra, pisca, respira, desvia o olhar, mas a memória que teve de outras flores, amarelas e azuis, faz a sua noção do tempo, a sua vida ampliar-se em passado e presente. Um homem sem memória é um homem sem tempo. Alguém que tem de aprender, todos os dias, a andar de bicicleta, a escovar os dentes, a vestir a camisa. Para esse homem, o relógio não funciona. Os ponteiros estão sempre em posições diferentes, mas parados. Não há instrumentos para perceber que o ponteiro se deslocou de um lugar ao outro*. Sim, é preciso memória para reparar no vento, para ver a pipa voar. Essa estátua. Essa estátua no meio da praça é um homem sem memória do braço que nunca levantou. Uma fotografia. Esse quadro. Esse quadro é uma mulher sem memória. Uma mulher para a qual as árvores são sempre borrões de verdes e azuis. Pelo menos, é isso o que eu vejo. Mas posso estar enganada. Pode ser que a estátua seja eu. A estátua que não percebe a vida correndo através do quadro. Assim como a estátua da praça, para quem eu sou apenas uma pintura de melanina. Assim como é de tinta essa mulher que eu enxergo. Talvez, haja uma história por trás das pinceladas, assim como há uma história por detrás de mim. Que o homem da estátua não vê. Você note: Deus quis brincar de massinha e criou o homem do primeiro barro. Vá lá saber o que há detrás dessas pinceladas. | Responder a Rita Apoena



18/05 | 10:45 | Querido,
Este teu monitor é o quadrado mundo que impede o navegante de ir além-mar. Fosse redondo eu poderia entrelaçar os meus dedos nos teus ou, quem sabe, buscar o horizonte onde divisam teus olhos. Mas nem os olhos me fariam alcançar, pois como as vidas, escondidas, que amanhecem e entardecem além do olhar, um abraço não se enxerga e sonhos um olhar não conta. Ao mundo que ultrapassa o além-mar dos teus olhos: abraçar é preciso.| Responder a Rita Apoena



17/05 | 15:20 | Miúda,
miúda
no vaso onde findo a semente há de crescer uma flor
que depois de cavoucada a terra entre os meus dedos
abrirá — com os seus — os grãos da terra

no ar onde ela recolhe os resquícios de sol e de chuvas esquecidas
há de estilhaçar o invisível com uma pequena folha
ainda verde

e se à tarde tingir-se do sol que não pode conter
há de brincar estrelas na escuridão
e quando a sede e o frio encurvarem
a sua memória de luz
há de apanhar na concha formada
uma pequenina outra
ainda voando

e cair por fim em terra
a embalar a sua nova, potente e quase
muda

| Responder a Rita Apoena



16/05 | 10:31 | Querido Helano,
hoje eu andei as ruas todas em silêncio, tentando fazer silêncio pelo lado de fora. Quando não quero que os meus pensamentos acordem as crianças do mundo, prefiro escrever uma carta sem muito ruído. Antes disso, chamei a minha avó. A minha avó só queria um abraço. E avós, na minha história, são pessoas que esperam o dia todo por um abraço. E abraços, na minha história, são técnicas de estourar, com o corpo, um balão cheio de vazios. Ah, Helano, vim pelas ruas lhe escrevendo cartas. Dois rapazes riram das roupas de um homem. Quis escrever cartas a esse homem também, mas dois passos eram ainda mais longe que Paris! Queria dizer a ele que não se sentisse desconfortável no mundo, tudo bem a sua blusa ser assim. O homem baixou a cabeça como se o carteiro entre nossos passos tivesse errado os braços e o homem, já tão longe de mim, tivesse atravessado a rua. Quis dizer que a blusa roxa e brilhante brincava de voar no varal, acenando alegre a quem passava. Quis dizer isso a ele, quis muito, mas não disse, é claro. Há tantas coisas que não dizemos a um desconhecido… Talvez, ainda mais, muito mais, aos desconhecidos de Paris! Por isso lhe escrevo, para que não se esqueça de nosso mundo quentinho. Por hoje, fiquei com o começo desta carta e um abraço em minha avó. Por hoje, querido Helano, por hoje, foi só.

| Responder a Rita Apoena



Rita Apoena

"Escreve-se, pois, ou para não estar só ou para não deixar só."
(Crabbé Rocha)

átimo
vivo tão intensamente
o momento presente
que quase chego atrasada
ao momento seguinte


fresta
mas a poeira é só a vontade
que o chão tem
de voar


pressentimento
procuro uma câmera
que fotografe o iminente
e a memória revele as imagens
pendurando-as na linha do tempo
para secar


primitivo
não tenho cadernos
tudo o que escrevo
escrevo nas paredes do meu quarto
se é para estar presa
que seja entre quatro poemas


pavimento
para o homem que dorme na rua
o asfalto é só uma noite escura
e sem estrelas


despedida
os cílios agarraram-se às pálpebras
quando tentei fechar os olhos
mas você assoprou e todos voaram
de novo nasceram e de novo voaram
não faça mais isso!
quem vai cortar a lágrima em fatias
no dia em que você for embora?


calafrio
o arrepio é quando
– por serem tão leves –
os seus dedos conseguem
em cada um dos meus poros
soerguer uma flor


grande centro
e só essa multidão
que barra e esbarra em meus ombros
em alguns anos terei os ombros
esculpidos pela solidão


raiva
no calor do fogo é que se molda o vidro
e quando a peça esfria
vê-se um pote fundo
de tristezas


Mariana
lambeu as lágrimas que escorriam
manchando a língua de tristezas
quando o vazio é muito grande
as lágrimas são transparentes


infinito
queria que seus olhos caíssem
no buraco negro
dos meus


ponto de fuga
no início da longa estrada
uma placa de trânsito
avisa os transeuntes:
favor reduzir a estatura
à medida em que se aproximar
do horizonte


côncavo
mas naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro
e quanto mais o tempo passava
mais o menino crescia
esbarrando em seu coração


estorvo
há dias em que ele me abraça
um abraço empalhado:
um espantalho que abriu os braços
apenas para espantar os corvos



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